Desde 2013, o CAT (Clube Amigos da Terra) Sorriso atua na certificação da soja sob o padrão internacional RTRS – Round Table on Responsible Soy, por meio do projeto Gente que Produz e Preserva. A iniciativa rendeu ao CAT reconhecimento do Ministério da Agricultura pela promoção de boas práticas agrícolas.
Este é um dos projetos apresentados pela dupla Cristina Delicato, coordenadora e Andreia Sousa, assistente de projetos do CAT Sorriso, em entrevista ao podcast Agro de Primeira MT desta semana, que acaba de ganhar um canal próprio no YouTube.
Elas explicam que a certificação exige o cumprimento de 106 critérios, que vão desde infraestrutura mínima para trabalhadores até protocolos ambientais, rastreamento da fauna, manejo correto de resíduos e comprovação de que não houve desmatamento após 2008 (ou 2016 para áreas de alta preservação).
O processo envolve auditorias anuais, acompanhamento técnico e uma pré-auditoria realizada pelo próprio CAT. O número de propriedades certificadas cresceu de 9 para 54 fazendas — que, juntas, produziram 690 mil toneladas de soja física na última safra.
Cada tonelada certificada gera um crédito RTRS, vendido a indústrias que utilizam soja como matéria-prima. A remuneração pode variar entre US$ 2 e US$ 4 por tonelada, gerando retorno direto ao produtor.
Nos últimos dez anos, mais de US$ 11 milhões foram distribuídos aos participantes do programa. O milho certificado também começa a entrar no processo, embora o mercado ainda esteja em formação.
“O dinheiro é usado pelos produtores para comprar um maquinário ou para distribuir entre os funcionários, mas eles sempre nos falam que mais importante que isso é o reconhecimento pela forma de gerir suas propriedades com boas práticas agrícolas”, disse Cristina.
Origem do CAT Sorriso
O CAT Sorriso leva tecnologia agrícola, responsabilidade socioambiental e qualificação a produtores rurais do norte de Mato Grosso. A associação sem fins lucrativos surgiu em 2002, impulsionada pela chegada da soja à região e pela necessidade de profissionalização do agronegócio local.
“Os produtores buscavam tecnificação, manejos produtivos diferenciados e respostas para o plantio direto no Cerrado, que na época ainda carecia de pesquisa”, lembra Cristina Delicato, coordenadora do CAT em Sorriso.
O grupo começou com 42 produtores e hoje reúne cerca de 120 associados, entre grandes propriedades e agricultura familiar, atendendo Sorriso e municípios vizinhos. Nos primeiros anos, as ações eram financiadas pelos próprios produtores. Hoje, o CAT mantém projetos estruturados que buscam boas práticas agrícolas com apoio de indústrias e iniciativas privadas, especialmente de países europeus.
Agricultura familiar e protagonismo feminino
A frente de trabalho com agricultura familiar ganhou força com o programa Cultivando a Vida Sustentável.
A iniciativa oferece consultoria e capacitação para associações e cooperativas rurais, abrangendo sistemas de produção como horticultura, fruticultura e piscicultura.
“Somente em 2025, foram mais de 20 capacitações, impactando mais de 1.000 pequenos produtores”, informou Andreia Souza.
Dentro do programa, o CAT desenvolve ações específicas de protagonismo feminino, com treinamentos de gestão voltados às mulheres que comandam pequenas propriedades rurais.
Boas práticas agrícolas e origem
Outra frente do CAT é a implantação de unidades demonstrativas de sistemas agroflorestais, utilizadas como laboratório para pesquisas de recuperação e manejo da reserva legal. Duas dessas unidades funcionam em assentamentos de Sorriso.
O programa também deu origem ao Selo de Identificação de Origem da Agricultura Familiar, que garante visibilidade, rastreabilidade e credibilidade aos produtos de hortifrúti, mandioca, frutas e outros itens cultivados por pequenos produtores. O selo facilita o acesso a mercados diferenciados, feiras, supermercados e até à merenda escolar e incentiva as boas práticas agrícolas.
Recuperação de nascentes e educação ambiental
Em 2020, o CAT mapeou 102 nascentes da Bacia do Rio Lira e identificou que 60 delas necessitavam de intervenção. Com apoio de empresas da Europa — incluindo grupos da Holanda, Noruega e México — e parceiros locais como IFMT e Ministério Público, já foram revitalizadas nove nascentes. Uma nascente custa, em média, US$ 10 mil, e o projeto inclui a produção de mudas em um viveiro revitalizado com capacidade para 20 mil unidades por ano.

O trabalho envolve ainda estudantes da região, integrando educação ambiental ao processo de restauração. O CAT já produziu oito cartilhas, com tiragens de 10 mil exemplares cada, e contabiliza mais de 170 mil crianças atendidas em ações que incluem visitas a propriedades, áreas de restauração e atividades práticas de plantio.
Para 2026, Cristina e Andrea querem continuar os projetos e buscar, cada vez mais, a capacitação de produtores para as boas práticas agrícolas.