Seja Bem Vindo - 02/04/2026 04:50

Certificados de boas práticas agrícolas no Agro de Primeira MT

Desde 2013, o CAT (Clube Amigos da Terra) Sorriso atua na certificação da soja sob o padrão internacional RTRS – Round Table on Responsible Soy, por meio do projeto Gente que Produz e Preserva. A iniciativa rendeu ao CAT reconhecimento do Ministério da Agricultura pela promoção de boas práticas agrícolas.

Este é um dos projetos apresentados pela dupla Cristina Delicato, coordenadora e Andreia Sousa, assistente de projetos do CAT Sorriso, em entrevista ao podcast Agro de Primeira MT desta semana, que acaba de ganhar um canal próprio no YouTube.

Elas explicam que a certificação exige o cumprimento de 106 critérios, que vão desde infraestrutura mínima para trabalhadores até protocolos ambientais, rastreamento da fauna, manejo correto de resíduos e comprovação de que não houve desmatamento após 2008 (ou 2016 para áreas de alta preservação).

O processo envolve auditorias anuais, acompanhamento técnico e uma pré-auditoria realizada pelo próprio CAT. O número de propriedades certificadas cresceu de 9 para 54 fazendas — que, juntas, produziram 690 mil toneladas de soja física na última safra.

Cada tonelada certificada gera um crédito RTRS, vendido a indústrias que utilizam soja como matéria-prima. A remuneração pode variar entre US$ 2 e US$ 4 por tonelada, gerando retorno direto ao produtor.
Nos últimos dez anos, mais de US$ 11 milhões foram distribuídos aos participantes do programa. O milho certificado também começa a entrar no processo, embora o mercado ainda esteja em formação.

“O dinheiro é usado pelos produtores para comprar um maquinário ou para distribuir entre os funcionários, mas eles sempre nos falam que mais importante que isso é o reconhecimento pela forma de gerir suas propriedades com boas práticas agrícolas”, disse Cristina.

Origem do CAT Sorriso

O CAT Sorriso leva tecnologia agrícola, responsabilidade socioambiental e qualificação a produtores rurais do norte de Mato Grosso. A associação sem fins lucrativos surgiu em 2002, impulsionada pela chegada da soja à região e pela necessidade de profissionalização do agronegócio local.

Adriane Steinmetz recebe as representantes do CAT Sorriso, Cristina Delicato e Andreia Sousa.

“Os produtores buscavam tecnificação, manejos produtivos diferenciados e respostas para o plantio direto no Cerrado, que na época ainda carecia de pesquisa”, lembra Cristina Delicato, coordenadora do CAT em Sorriso.

O grupo começou com 42 produtores e hoje reúne cerca de 120 associados, entre grandes propriedades e agricultura familiar, atendendo Sorriso e municípios vizinhos. Nos primeiros anos, as ações eram financiadas pelos próprios produtores. Hoje, o CAT mantém projetos estruturados que buscam boas práticas agrícolas com apoio de indústrias e iniciativas privadas, especialmente de países europeus.

Agricultura familiar e protagonismo feminino

A frente de trabalho com agricultura familiar ganhou força com o programa Cultivando a Vida Sustentável.

A iniciativa oferece consultoria e capacitação para associações e cooperativas rurais, abrangendo sistemas de produção como horticultura, fruticultura e piscicultura.

“Somente em 2025, foram mais de 20 capacitações, impactando mais de 1.000 pequenos produtores”, informou Andreia Souza.

Dentro do programa, o CAT desenvolve ações específicas de protagonismo feminino, com treinamentos de gestão voltados às mulheres que comandam pequenas propriedades rurais.

Boas práticas agrícolas e origem

Outra frente do CAT é a implantação de unidades demonstrativas de sistemas agroflorestais, utilizadas como laboratório para pesquisas de recuperação e manejo da reserva legal. Duas dessas unidades funcionam em assentamentos de Sorriso.

O programa também deu origem ao Selo de Identificação de Origem da Agricultura Familiar, que garante visibilidade, rastreabilidade e credibilidade aos produtos de hortifrúti, mandioca, frutas e outros itens cultivados por pequenos produtores. O selo facilita o acesso a mercados diferenciados, feiras, supermercados e até à merenda escolar e incentiva as boas práticas agrícolas.

Recuperação de nascentes e educação ambiental

Em 2020, o CAT mapeou 102 nascentes da Bacia do Rio Lira e identificou que 60 delas necessitavam de intervenção. Com apoio de empresas da Europa — incluindo grupos da Holanda, Noruega e México — e parceiros locais como IFMT e Ministério Público, já foram revitalizadas nove nascentes. Uma nascente custa, em média, US$ 10 mil, e o projeto inclui a produção de mudas em um viveiro revitalizado com capacidade para 20 mil unidades por ano.

Alunos da rede escolar de Sorriso visitam propriedade agrícola.
Alunos da rede escolar de Sorriso visitam propriedade agrícola. (Foto: divulgação CAT/Sorriso)

O trabalho envolve ainda estudantes da região, integrando educação ambiental ao processo de restauração. O CAT já produziu oito cartilhas, com tiragens de 10 mil exemplares cada, e contabiliza mais de 170 mil crianças atendidas em ações que incluem visitas a propriedades, áreas de restauração e atividades práticas de plantio.

Para 2026, Cristina e Andrea querem continuar os projetos e buscar, cada vez mais, a capacitação de produtores para as boas práticas agrícolas.

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