Acidentes de trabalho estão entre consequências do alcoolismo, aponta psicóloga

Além de prejudicar a saúde clínica do trabalhador, o uso do álcool também compromete muito o desempenho profissional, ela alerta

Foto: Reprodução/Agência Brasi

O Brasil está entre os países onde mais se consome álcool no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig) mostra também que 55% da população brasileira tem o hábito de consumir bebidas alcoólicas.

Com 15 anos de experiência no atendimento de dependentes químicos e seus familiares, a psicóloga Mariane Collares falou, na Rádio do Tribunal Regional do Trabalho, sobre os prejuízos pessoais, familiares e no ambiente profissional.

O que caracteriza o alcoolismo e quais os indícios da doença?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o alcoolismo é uma doença crônica. É caracterizada pelo uso compulsivo do álcool, no qual o usuário tem uma progressiva tolerância a intoxicação dessa substância e vai desenvolvendo também sinais e sintomas de abstinência quando diminui ou para o uso.

São três características importantes no diagnóstico do alcoolismo: o uso constante, o uso descontrolado e o uso progressivo. O uso constante é um desejo incontrolável de beber; o uso descontrolado é quando começa a beber e não consegue parar; e o uso progressivo se caracteriza por precisar de doses cada vez maiores para atingir o mesmo efeito. É importante falar que o próprio usuário tem muita dificuldade de identificar essa doença. A maioria nos procura por meio de familiares ou por meio de amigos porque o próprio usuário não consegue identificar.

Como o alcoolismo é uma doença silenciosa e os problemas clínicos são a longo prazo, as pessoas acham que os prejuízos do dia a dia como perda do trabalho e demissão no trabalho, por exemplo, são por outros motivos e não por causa do alcoolismo.

Qual é o impacto do álcool para o trabalhador e quais os comportamentos mais comuns no ambiente de trabalho?

Além de prejudicar a saúde clínica do trabalhador, o uso do álcool também compromete muito o desempenho profissional. Causa significativa perda de memória, perda da atenção, perda da coordenação motora e tudo isso vai prejudicando o seu trabalho, gera conflitos com colegas e superiores, por exemplo, causa sintomas relacionados a sua saúde mental como ansiedade, agressividade, depressão. Além de outras questões que são comuns como faltas frequentes, atraso, atestados médicos e, dependendo da função, os acidentes de trabalho.

As consequências do álcool podem ser tão devastadoras quanto as drogas ilícitas?

Com certeza. O alcoolismo pode gerar uma série de problemas na saúde tanto a curto quanto a longo prazo. Como é uma droga depressora do sistema nervoso central, a curto prazo há uma diminuição da atividade cerebral, lentidão, sonolência e prejuízos na coordenação motora no dia a dia no trabalho. Já há longo prazo, temos doenças mais graves como problemas cardíacos, cirrose hepática, disfunções sexuais, câncer, infecções graves e transtornos mentais graves como a esquizofrenia.

Uma pesquisa recente apontou um aumento no índice de pessoas mortas por conta do álcool na pandemia, o que dizer sobre isso?

Essa pesquisa foi realizada pelo Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool com base em informações do Data SUS. Essa pesquisa apontou que no primeiro ano da pandemia, em 2020, houve um crescimento de 24% das mortes relacionadas ao uso de álcool em comparação com o ano anterior.

Essas mortes poderiam ter sido evitadas. Mas é importante ressaltar que o álcool, em geral, não causa morte a curto prazo, só se essa pessoa se envolve em situações de risco como acidentes no trabalho, acidentes domésticos e acidentes de trânsito. Ainda segundo a pesquisa, em 2020 houve uma diminuição das internações hospitalares relacionadas ao álcool, o que me leva a crer que essas mortes foram realmente relacionadas a situações de risco ou então essas pessoas já tinham o alcoolismo e, por causa da pandemia, não procuraram ajuda nos hospitais, vindo a óbito.

Existe incentivo ao consumo de álcool no Brasil, não apenas pelas propagandas, mas também por outras fórmulas de estímulo do consumo?

Eu não acredito que há incentivo. Nós temos até uma lei do Estatuto da Criança e do Adolescente que proíbe a venda e o oferecimento de bebida alcoólica para menores de 18 anos e essa lei não é só para vendedores, é para familiares também. O que está acontecendo é uma falta de aplicação dessa lei, e a gente sabe que o oferecimento da bebida alcoólica acontece até mesmo no ambiente familiar.

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FONTE(Da Assessoria)
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