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Antes da denúncia, a morte: como a violência avança até o feminicídio em MT | VGN

Em Mato Grosso, a violência que antecede o feminicídio raramente chega aos registros oficiais. Em 2025, a maioria das mulheres assassinadas no Estado não estava inserida em registros formais de denúncia nem havia sido alcançada pela rede de proteção antes do crime. Dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso, mostram que, mesmo com milhares de medidas protetivas concedidas ao longo do ano, grande parte dos casos se desenvolveu fora do alcance dos serviços públicos. O padrão se repete sobretudo no interior, onde o acesso aos atendimentos é mais limitado. A resposta institucional, na maior parte das vezes, começa depois da morte.

Ao longo de 2025, ao menos 52 mulheres foram mortas em contextos de feminicídio em Mato Grosso, segundo levantamento do Observatório Caliandra, do Ministério Público. Os crimes ocorreram em diferentes municípios, envolveram mulheres de idades e perfis diversos e, em vários casos, chamaram atenção pelo contexto: vítimas mortas após o término do relacionamento, mulheres assassinadas na presença de filhos, jovens grávidas e crimes cometidos mesmo após episódios anteriores de ameaça ou agressão.

Os dados revelam um padrão que ajuda a explicar por que a violência não foi interrompida a tempo. Em 86% dos feminicídios registrados em 2025, as vítimas não tinham medida protetiva vigente no momento da morte. Em apenas 11 casos havia registro prévio de boletim de ocorrência contra o autor, embora 42% das mulheres já tivessem histórico de violência de gênero praticada por parceiros, ex-parceiros ou familiares. No mesmo período, Mato Grosso registrou a concessão de 17.559 Medidas Protetivas de Urgência, segundo dados do Observatório Caliandra, consolidados até 16 de dezembro de 2025.

Para a procuradora de Justiça Claire Vogel Dutra, coordenadora do Núcleo das Promotorias de Justiça Especializadas no Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Capital, os números indicam que o principal desafio está antes da concessão da medida, no acesso ao sistema e na ruptura do ciclo de violência. “A medida protetiva é um instrumento que, quando acionado, tende a ser eficaz. O problema é que muitas situações de violência não chegam ao sistema de Justiça”, explicou.

Segundo a procuradora, o cenário revela um contexto de isolamento e silêncio. “Muitas mulheres vivem a violência de forma silenciosa, sem apoio psicológico, social ou familiar para conseguir denunciar. Não é uma escolha simples. Muitas vezes, elas estão emocionalmente fragilizadas, dependentes economicamente ou sem uma rede que as ampare”, afirmou. Para ela, a prevenção exige uma atuação que vá além da resposta penal. “A violência é naturalizada em muitos ambientes, e isso impede que a ajuda chegue a tempo.”

Essa fragilidade aparece de forma mais intensa fora da Capital. A promotora de Justiça Ana Carolina Alves, da Comarca de Nova Mutum e coordenadora adjunta do CAO Violência Doméstica, avalia que o problema central no interior não está na demora do Judiciário, mas na dificuldade de acesso aos serviços e na falta de integração entre as instituições. “O fluxo permite que a medida protetiva seja concedida rapidamente. O que falha, muitas vezes, é o atendimento inicial, o acolhimento e a identificação do risco logo no primeiro contato”, disse.

Ela destaca que, em municípios menores, a ausência de delegacias especializadas, casas-abrigo e equipes multidisciplinares limita a capacidade de prevenção. “Sem estrutura e sem diálogo entre os órgãos, a resposta acaba sendo acionada apenas depois do crime. A mulher precisa de proteção contínua, não só de uma atuação isolada”, afirmou. Embora o descumprimento de medidas protetivas seja crime e possa resultar em prisão ou monitoramento eletrônico, esses mecanismos não alcançam mulheres que permanecem isoladas e fora da rede.

A professora Lélica Elis, do Departamento de Serviço Social e da Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso, avalia que o feminicídio é o desfecho extremo de desigualdades sociais, econômicas e territoriais acumuladas ao longo do tempo. “O feminicídio não surge do nada. Ele é resultado de relações marcadas por desigualdade, precariedade e ausência de políticas públicas que garantam proteção e autonomia às mulheres”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, o recorte territorial aprofunda o problema. “Em municípios menores, há menos serviços, menos informação e menos possibilidades de apoio. Isso torna muito mais difícil romper com a violência antes que ela chegue ao limite”, explicou.

As consequências do feminicídio não se encerram com a morte. Em 2025, os crimes registrados deixaram 87 crianças e adolescentes órfãos em Mato Grosso. Para essas famílias, o luto vem acompanhado de disputas judiciais, traumas psicológicos e da necessidade de reorganizar a vida em meio à ausência definitiva.

Rogério Silva, que perdeu a irmã em um feminicídio ocorrido em 2022, afirma que a violência nunca chegou ao conhecimento da família. “Minha irmã nunca nos falou que estava passando por isso. Ela sofria calada”, relatou. Após o crime, a família precisou recorrer à Justiça para definir a guarda do sobrinho. “Ele morava com a avó paterna. Depois do caso, tivemos que entrar na Justiça para ficar com a avó materna”, contou.

Segundo Rogério, houve atendimento psicológico, mas a sensação é de que nada repara a perda. “Nada vai trazer minha irmã de volta”, disse. O alerta que ele deixa é direto: “Não tenha medo de denunciar. Fale para alguém, porque depois que acontece já é tarde.”

Ao longo de 2025, os registros mostram que a maioria dos feminicídios em Mato Grosso não foi precedida por denúncia formal ou acionamento da rede de proteção. Em diferentes municípios, a violência se desenvolveu dentro de casa, longe dos serviços públicos e sem intervenção institucional antes do crime.

Leia matéria relacionada: 52 mulheres mortas, 87 órfãos: o fracasso da proteção contra feminicídio em MT

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